A Comunicação Não-Violenta e as vozes que moram dentro da nossa cabeça

Como consultora de educação positiva, vejo um processo acontecer de forma recorrente com muitas famílias: primeiro, os pais conhecem a disciplina positiva, entendem a importância da educação sem violência e realizam que é isso que desejam para os seus filhos. Dão adeus às palmadas e às punições, primeiro passo dado (ótimo, as crianças agradecem). Em seguida, os pais desejam conhecer mais e mais sobre as ferramentas da disciplina positiva e se dedicam a tentar aplicá-la no dia a dia.

Nessa jornada, percebo que os pais começam a enfrentar um enorme desafio, que são as vozes que moram dentro das suas cabeças. Então, chegamos ao ponto em que sempre digo que educar uma criança envolve um processo de autoeducação. Mas vamos entender o que isso significa.

Recentemente estive em um evento de Introdução à Comunicação Não-Violenta do querido Dominic Barter. Eu não poderia descrever em um breve artigo a poderosa força transformadora do trabalho do Dominic, mas vou contar apenas um breve momento do evento que fez todo o sentido para a minha vida profissional e pessoal. Dominic nos propôs um exercício individual de tentar identificar como falamos conosco (silenciosamente, apenas em nossas mentes) no nosso dia a dia.

Quando cometemos um erro, o que falamos para nós mesmos? Quando esquecemos alguma coisa importante, o que falamos para nós mesmos? Quando nos sentimos frágeis e vulneráveis, o que falamos para nós mesmos? Éramos quase 100 adultos em uma sala e todos os exemplos que ouvi eram de palavras duras, cortantes e nada acolhedoras no diálogo interno que cada pessoa tem consigo mesma. “Sua burra, esqueceu isso de novo!”, “Vai fraquejar agora?”, “Deixa de ser lerdo, ninguém vai aturar você desse jeito”.

Você que está lendo este artigo, faça esse exercício agora mesmo. Como é que você se trata num momento em que as coisas não saem assim tão perfeitas? O que as vozes que moram dentro da sua cabeça falam sobre você? São vozes de acolhimento ou de acusação? De amor ou medo? De liberdade ou culpa? De aceitação ou revolta? De perdão ou ódio?

Vejam como um exercício aparentemente muito simples pode nos trazer pistas preciosas de como tratamos a nós mesmos. Se você é mãe, pai ou cuidador, saiba que seu discurso interno de não acolhimento e não aceitação para com você mesmo vai dificultar muito (ou até mesmo impedir) que você consiga fazer esse movimento com a sua criança. Eu tenho tentado trabalhar isso em mim todos os dias.

Acolher, amar, aceitar e perdoar não é “passar a mão na cabeça” no sentido de aceitar o comportamento, ficar estagnado e não transformar. Não é aceitar o comportamento (ou o “mau comportamento”, no caso das crianças), é aceitar a pessoa em si, com todo o seu processo imperfeito de crescimento e evolução. Porque é assim que funciona, todos nós somos inacabados e estamos constantemente aprendendo, transformando, criando e recriando as nossas vidas e as nossas histórias.

Se você tem uma ou mais crianças sob seu cuidado, faça esse exercício de perceber o que as vozes que moram dentro da sua cabeça falam para você. O nosso trabalho interno vem primeiro porque ninguém pode dar aquilo que não tem. Para amar completa e incondicionalmente uma criança precisamos aprender a nos amar assim primeiro.

Se você deseja saber mais sobre a disciplina positiva, aqui no blog você pode baixar gratuitamente meu e-book “SOS Disciplina Positiva: novas ideias para antigos desafios na educação dos seus filhos”. E se quiser falar comigo ou contar a sua experiência com as vozes que moram dentro da sua cabeça, deixa um comentário aqui embaixo.

Grande abraço,

Juliana.

 

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Juliana Cidade

Juliana Cidade Cardoso é mãe de dois meninos, psicopedagoga e educadora parental certificada em Disciplina Positiva pela Positive Discipline Association. Atua como consultora de educação positiva através de atendimentos presenciais em grupo (Rio de Janeiro) e individuais online. Ministra cursos, palestras e workshops sobre Disciplina Positiva.

Website: http://www.universodascriancas.com.br

12 Comentários

  1. LORENA KOVAC

    Perfeito, Ju! As vozes que moram na minha cabeça são bem duras comigo! kkkkkk
    Vou fazer esse exercício. É uma reflexão muito importante. Realmente não podemos dar aquilo que não temos.
    Um grande beijo e obrigada por estes textos maravilhosos que escreve aqui!

    • Pois é, Lore, a gente pega pesado com a gente, né? Mais amor, por favor! rsrsrs Estou nesse processo.
      Obrigada pelo seu comentário!
      Bjs,
      Ju.

  2. Tatiana de Oliveira da Silva

    Nunca tinha me atentado a isso. Só ouço gritos em minha mente comigo mesma. Muitas vezes, assim reproduzo pra meu filho. Vou fazer esse exercício todos os dias daqui pra frente.
    Obrigada
    🙏

    • Isso mesmo, a gente vai repetindo o padrão e a forma de quebrar é primeiro trazendo pra consciência. Estou nesse processo também, obrigada por compartilhar como é com você. Bjs!

  3. GLAUCIA BERTELLI DOS REIS

    Excelente

  4. Carla

    Nunca tinha pensado nisso. E um habito ja assimilado. Sempre me xingo ou fico triste demais como nos tempos de crianca. Obrigada pela dica e assim nao vamos reproduzindo por ai padroes infants na idade adulta😊

  5. Liliane

    Fiz o exercício e, apesar de ter melhorado muito com o tempo, ainda maltrato a criança que mora dentro de mim. Então em seguida fiz outro exercício e criei uma lista de: “eu me perdoo por…”. No começo deu um nó na garganta, mas ao fim da lista me senti aliviada. Resta agora me perdoar cada dia pelas imperfeições e ver na minha filha outro ser como eu em constante evolução, além de tratá-la como eu quero que a minha criança interna seja tratada também. Obrigada pela reflexão!

    • Uau, Liliane, que lindo esse desdobramento que você fez do exercício com a frase “eu me perdoo por…”. Acolher, perdoar, aceitar, amar incondicionalmente. Nossos filhos vêm como presentes nos ensinando esses movimentos. Obrigada pela sua contribuição aqui.

  6. Araci Costa Araújo

    Oi Juliana,
    estou muito feliz de ter encontrado pessoas que estão nesse caminho de transformação, de auto conhecimento…sou mãe solteira de uma nina de 8 anos e estou correndo atrás desse padrão de disciplina…Vou fazer de hoje em diante esse exercício e agradeço tantas boas informações…bjs

    • Olá, Araci, tudo bem?
      Eu também fico muito feliz sempre que encontro pessoas dispostas a quebrar padrões e se transformar pra educar sem violência. A gente sabe que não é nada fácil, mas é um caminho possível e lindo! Eu que agradeço por sua participação aqui! Bjs!

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