A Mãe do Perdedor

Esse é um relato pessoal, de um insight poderoso que eu tive há alguns dias, quando estávamos passando férias em família. Estava chovendo no dia e, sem as opções de praia e piscina, fomos olhar a programação indoor do hotel. Decidimos nos inscrever em um Torneio de Damas que haveria à tarde, eu, meu marido e meu filho de 11 anos.

Chegamos ao salão no horário marcado e só havia adultos para competir no torneio, nenhuma criança. O professor / jurado / monitor decidiu quem jogaria contra quem na primeira rodada e joguei contra meu filho. Joguei pra valer, sem facilitar pra ele, mas como não conheço nem as regras direito, não foi difícil ele me vencer. Na próxima rodada, o monitor definiu novamente as duplas. Eu já estava fora do torneio e meu filho jogou contra um homem adulto. Venceu novamente. Ficou animado e eu achei incrível ele vencer de um adulto.

E foi assim, vencendo outros adultos, que meu filho de 11 anos chegou à final do Torneio de Damas do hotel. Era uma brincadeira, claro, mas percebi que pra ele estava sendo algo importante vencer daqueles adultos, e o clima do torneio era um tanto solene, já que era preciso ficar em silêncio absoluto durante as partidas.

Na grande final, meu filho jogou contra um senhor de aproximadamente 70 anos. Antes da partida, eu percebi que ele estava nervoso. Cheguei perto e perguntei:

– Filho, você tá nervoso?

– Tô sim, mãe, um pouco.

– Fica tranquilo, meu amor, isso aqui é só uma brincadeira.

E o ajudei a respirar fundo pra se acalmar. O que era “só uma brincadeira” havia começado a ficar sério naquele momento. Exatamente no momento em que eu percebi que estava sendo algo importante pra ele, e que ele estava nervoso. Um turbilhão de pensamentos na minha mente: Será que eu deveria estar permitindo que ele vivesse essa experiência? Será demais pra ele esse bando de adulto em volta assistindo ele jogar uma final de torneio contra um senhor que deve jogar Damas há 70 anos? Será muita pressão?

O jogo começou e pareceu muita pressão pra mim. Pensei “não aguento assistir”, me afastei, parei de acompanhar a partida, sentei em um banco a poucos metros dali e comecei a mexer no celular. E foi exatamente nesse momento que me veio um insight incrível do que estava acontecendo ali, algo importante que certamente vai nortear meu comportamento nas próximas vezes em que meus filhos estiverem vivendo momentos importantes.

Eu fiquei nervosa, tensa com a situação. Por isso, me afastei. Até então, meu foco estava em mim, como se EU fosse a protagonista daquele momento. No entanto, eu não era. ELE era o protagonista daquele momento, era ELE jogando a final e não eu. Era ELE tenso por jogar com um senhor campeão de Damas e não eu. Aquele momento era sobre ELE e não sobre MIM.

Naquele exato momento eu entendi que eu era apenas coadjuvante daquela situação, e ele o protagonista. Eu precisava olhar pra ele, dar a ele o que ele poderia precisar, e não atender à minha própria necessidade de me afastar pra não vê-lo viver o momento. No fundo eu sabia que, muito provavelmente, ele iria perder e eu não queria assistir a isso. Mas, para ele, talvez fosse muito importante ter o apoio, a presença e a energia da mãe ali, pra ele, naquele momento.

Então, larguei o celular, pedi licença às pessoas ao redor da mesa e me posicionei em um lugar onde ele facilmente pudesse me ver se levantasse os olhos. Clima tenso. Silêncio absoluto. Os adversários trocavam algumas palavras apenas e o monitor dava algumas orientações. Meu filho começou a entrar em desvantagem, e eu estava ali. Começou a perder o jogo, e eu estava ali. Chegou um momento em que ficou encurralado: independentemente do movimento, ele perderia, e eu estava ali. Enfim, o jogo chegou ao fim, ele perdeu. E eu estava ali.

Assim que o jogo acabou, os olhos dele buscaram os meus. E os meus olhos acolhedores estavam ali pra ele. Levantou da cadeira e buscou meu abraço. E os meus braços acalentadores estavam ali pra ele. Eu estava ali inteira, presente, disponível. Eu não precisava me poupar do momento de vê-lo perder porque, por mais difícil que fosse pra mim, era a experiência dele, era a existência dele, as aprendizagens dele e eu só precisava estar inteira ali pra apoiá-lo.
Doeu em mim? Sim, um pouco. Doeu nele? Sim, um pouco, provavelmente. Mas poderia ter doído mais, com toda certeza, se a mãe tivesse se ausentado covardemente do momento difícil.

Eu, a mãe do perdedor, estive ali por inteiro, de cabeça erguida, enfrentando as adversidades da vida com coragem. E, porque eu estava ali, o meu filho pôde contar com o meu apoio para enlutar o fato de ter perdido, depois aceitar o fato de ter perdido (a vida é assim mesmo, às vezes a gente ganha, às vezes a gente perde) e, por fim, até mesmo celebrar o fato de que, apesar de ter perdido, ele deu trabalho pra aquele senhor campeão das Damas, construindo um jogo difícil e demorado.

O primeiro lugar ganhava um passeio de carrinho elétrico. O segundo lugar ganhava pipoca e refrigerante. Vejam, eram besteirinhas, não era pelos prêmios, era pela brincadeira. Meu filho ficou com o vale pipoca e refrigerante e, orgulhosamente, nos ofereceu como lanche naquela tarde. Sinceramente? Foi a pipoca mais gostosa que já comi na vida!

E o passeio de carrinho elétrico? Fizemos no dia seguinte, pagando. Era tão baratinho! Valeu mais a experiência. Agora eu sei que posso encontrar dentro de mim um espaço pra ser forte nos momentos difíceis dos meus meninos. A vida tem disso… e se eu me acovardar justamente nesses momentos vou deixá-los em um deserto emocional. Não. Eu quero oferecer a eles meu apoio, meus olhos, meus braços, meu abraço, minhas palavras de amor e conforto, sempre que eles precisarem.

Se a vida é cheia de altos e baixos (um dia a gente come pipoca e no outro anda de carrinho elétrico) quero que em todos eles os meus meninos possam contar comigo. A vida deles é sobre eles, e não sobre mim. O protagonismo é deles, não meu. Que eu possa, então, brilhar no meu papel de apoio, de coadjuvante, deixando-os livres pra que errem, acertem, percam, ganhem, na certeza de que terão sempre pra onde voltar quando quiserem acalento e amor.

Estou aqui pra vocês, meus meninos, sempre que vocês precisarem. Com todo o meu amor.

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Juliana Cidade

Juliana Cidade Cardoso é mãe de dois meninos, psicopedagoga e educadora parental certificada em Disciplina Positiva pela Positive Discipline Association. Atua como consultora de educação positiva através de atendimentos presenciais em grupo (Rio de Janeiro) e individuais online. Ministra cursos, palestras e workshops sobre Disciplina Positiva.

Website: http://www.universodascriancas.com.br

6 Comentários

  1. Márcia Ramos

    Juliana parabéns pelo texto maravilhoso!! Me identifiquei muito com suas palavras!!
    Eu fui uma criança e jovem que não obtive este apoio!! Este aprendizado foi muito doido, mas acho que consegui vencê-lo.
    Mas me lembro bem de todas as vezes que me vi desamparada me fazia prometer a mim que não me permitiria fazer o mesmo a meus filhos!!
    Tenho dois, uma de 25 anos, que ainda está buscando seu caminho, e outro com 19 anos que já escolheu um caminho, seguir a carreira militar.
    E então me emocionei muito com seu texto. A escolha dele nos faz ficar longe fisicamente, ainda estou me adaptando com esta nova realidade, mas nos falamos sempre!
    O que mais me faz feliz é saber que eles sabem que tem a mim, para qualquer situação! Acho que consegui reverter o que faltou para mim, sendo importante e presente para eles! Não importa a distância.
    Um grande abraço!

    • Oi, Márcia! Coisa linda o seu depoimento! Prova viva de que sempre podemos buscar fazer mais e melhor pelos nossos filhos, mesmo que não tenhamos recebido dos nossos pais. É um processo curativo encontrar em nós essa capacidade. Gratidão pelo seu comentário aqui! Que nossos filhos possam ter sempre a segurança de poder voltar pro ninho quando precisarem de apoio. Bjs e parabéns pelas suas “crianças” grandes! 😉

  2. Christiane Ito

    Ju, verdade!
    Muitas vezes a gente confunde a experiência deles com as nossas, às vezes é difícil ser coadjuvante.
    Lindo texto! Muito rico, me emocionei e me identifiquei 😊
    Tenho uma filha de 3 anos, a Rebeca, e nós temos aprendido muito com vc.
    Obrigada
    Bjosss

    • Chris, muito obrigada pelo seu comentário aqui e pelo seu carinho! Ser mãe é viver um processo de aprendizado contínuo, né? Parabéns pela sua pequena e por estar buscando esse caminho de amor na educação dela! Estamos juntas!! 😉 Beijos!

  3. Lidiane Bartuccio

    Ju!!!
    Estou emocionada com o seu relato…

    Gosto de uma frase que é assim: “para a vida não há ensaios”. Não tem mesmo, mas quando estamos conectados com aqueles que amamos, temos mais oportunidade de fazer bem feito no “ao vivo”.
    Feliz pelo seu insight, feliz pelo seu compartilhamento, feliz por ter você nos meus contatos (mesmo distante).

    Gratidão,
    Lidiane

    • Lidi querida, muito obrigada pelo carinho! Verdade, para a vida não há ensaios (nem quando somos mães). Também gosto muito da frase “maternar é aprender a voar em pleno voo”. Beijos e gratidão por ter você aqui comigo!

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