Por que não oferecer recompensas aos nossos filhos

Com os muitos desafios que surgem no dia a dia com os filhos, é natural que os pais busquem estratégias que possam amenizar os problemas. As crianças questionam, teimam, gritam, fazem birras, desobedecem… Umas mais, outras menos, porém criança sendo criança é assim mesmo, vai apresentar fases desafiadoras. Por outro lado, pais e mães de crianças são seres humanos iguaizinhos a todos os outros: se cansam, se estressam, carecem de determinadas habilidades se não tiveram treino para elas (como a habilidade de educar, por exemplo, que acreditamos ser inata, porém a realidade dos fatos nos mostra que não é).

O que fazer com os filhos, então, diante dessas situações desafiadoras que surgem? Muitos pais hoje já entendem com facilidade os malefícios das palmadas e dos castigos, mas têm dificuldades em compreender por que não devemos oferecer recompensas às crianças para que façam algo que desejamos ou para que deixem de apresentar um mau comportamento. Vamos refletir, então, sobre o que são as recompensas e sobre os efeitos que elas podem ter nos cérebros em desenvolvimento das nossas crianças.

Para começar essa reflexão, é importante lembrarmos que por trás de todo comportamento existe uma necessidade, algo que buscamos (muitas vezes de forma inconsciente) e isso acontece com as crianças também. Portanto, o “mau comportamento” ou a “desobediência” é um reflexo de algo que não vai muito bem dentro da criança, em seu mundo interno. Bom, muitas vezes é um reflexo de algo que não vai bem em nós mesmos ou somente um comportamento normal da idade e nós é que desconhecemos as etapas do desenvolvimento infantil, mas isso já seria assunto para outro artigo.

A questão aqui é que é preciso investigar o que está por trás do problema que a criança apresenta antes de tentar eliminar o problema em si com soluções que parecem rápidas, mas que não atuam na causa. Atuar somente na ponta do iceberg e não olhar para todo o conteúdo que está ali submerso é arriscado, pois o mesmo problema tende a retornar, ainda que representado por sintomas diferentes.

Um exemplo, para tornar essa noção mais concreta: vamos imaginar uma criança que só dorme se um dos pais estiver junto com ela. Os pais decidem fazer um quadro de recompensas para estimular o filho a dormir sozinho e prometem que, se ele dormir sozinho por 10 dias, vão dar a ele um super brinquedo máster blaster ultra que os amigos dele têm e que ele estava doido para ganhar. Diante dessa promessa, a criança pode se esforçar muito para dormir sozinha pensando somente no brinquedo, e pode ser até que consiga. Porém…

Por que essa criança não conseguia dormir sozinha? Será que ela tinha medo? Será que sente a falta dos pais durante o dia e à noite seria o único momento em que sentia a atenção dos pais para si, um momento dedicado a ele? Será que essa criança não se sente segura para adormecer sozinha (lembrando que adormecer envolve confiança, entrega)? Como será que essa criança se sentiu ao ver seus pais prepararem o quadro de recompensas? Positivamente desafiada? Ou será que experimentou uma mistura de sentimentos negativos, como desejo exagerado de consumo, ansiedade, medo e até uma leve raiva dos pais por estar sendo submetido a essa gincana?

Ao ignorarmos todo o contexto por trás do comportamento das crianças, perdemos ótimas oportunidades de aprender sobre eles, ensiná-los a iniciar processos de autoconhecimento (podemos conduzi-los nesse caminho desde muito, muito cedo) e até de rever nossos posicionamentos, pois às vezes nossos desejos são mesmo incompatíveis com a etapa de desenvolvimento de nossos filhos. Outro exemplo, para ilustrar isso: decidimos usar recompensas com o objetivo de eliminar as birras, porém, as birras fazem parte do desenvolvimento infantil (têm sua função), e vão diminuindo naturalmente com o tempo, com o amadurecimento cerebral da criança.

O sistema de recompensas pode ser também bastante perigoso para a autoestima das crianças, além de colocar em risco a conexão genuína que ela tem com seus pais. Nem sempre a criança está pronta internamente para aquele passo (objetivo final para conquistar a recompensa). E um relacionamento baseado em “faça isso que te dou aquilo” não é, nem de longe, acolhedor para uma criança que necessita de afeto incondicional.

Vamos pensar agora em um outro aspecto que envolve as recompensas, que é a questão ética. Se estamos desejando obter algo da criança (que faça ou deixe de fazer algo), é porque acreditamos que isso é o bom, o desejável, o correto. Então, é preciso ensinar isso à criança (mesmo que dê trabalho, mesmo que demore; isso é educar). Oferecer recompensas pode parecer quase uma chantagem, um suborno, e isso com certeza não é algo que desejamos ensinar aos nossos filhos. Desejamos que eles façam as coisas certas por entenderem a importância delas e não com o objetivo de obter uma vantagem pessoal, certo?

E isso nos leva a mais uma reflexão: de onde vem a motivação da criança para ter uma vida equilibrada e saudável (no fim é só isso que desejamos quando não deixamos comer muito doce, mandamos para o banho ou insistimos para que façam a lição de casa)? Vem de um lócus de controle interno (uma percepção dentro dela, que cresce a cada dia), da importância de investir nessa vida saudável, para sua própria necessidade e bem estar? Ou vem de um lócus de controle externo, da necessidade de satisfazer um desejo alheio, sobre o qual ela não entende, não percebe a importância, mas sabe que ao satisfazer o desejo do outro receberá alguma vantagem?

Além disso, por que oferecer recompensas para que a criança faça algo que deve mesmo fazer? Contribuir em casa realizando tarefas para as quais já tenha capacidade? Obrigação de todos os membros da família, todos os que moram na casa. Fazer a lição de casa? Obrigação de todo estudante, de qualquer um que deseje ter liberdade de escolha profissional futura, de qualquer um que deseje contribuir com a sociedade em que vive (todas essas noções podem ser construídas com as crianças, claro que de formas diferentes dependendo da idade). Tomar banho? Obrigação de todo ser humano que deseje viver com saúde. E por aí vai…

Aos pouquinhos podemos ir ensinando sobre todas as coisas desse mundo… Mostrar o porquê das coisas, as consequências de deixar de fazer o que precisamos fazer (é claro que há limites para permitir que arquem com essas consequências, não vamos nunca colocar nossos filhos em risco). Mas podemos conduzir, orientar, ajudá-los nessa jornada de construir um balizador interno para nortear suas ações. É isso que vai torná-los fortes e autônomos: a construção de um consistente balizador interno para guiá-los por esse mundo tão desafiador.

Nós, pais, precisamos lembrar que não estaremos aqui para sempre. E, mesmo estando aqui, não teremos para sempre a mesma representatividade na vida dos nossos filhos que temos enquanto ainda são crianças. Oferecer recompensas é uma forma bastante eficaz de controle, mas na adolescência, por exemplo, perderemos muito da capacidade de controlá-los, pois a maior parte deles não se submeterá mais. A voz do grupo social costuma falar mais alto do que a voz dos pais nessa fase da vida. E esse é um dos motivos pelos quais é tão importante que tenhamos trabalhado com nossos filhos, desde muito cedo, no sentido da conexão verdadeira, confiança mútua, ensinando-os a perceber a si mesmos, buscar autoconhecimento e, assim (somente assim), eles serão capazes de fazer melhores escolhas.

Isso é tudo que podemos almejar para os nossos filhos, que saibam fazer as melhores escolhas, da adolescência até o resto de suas vidas. Mas, para isso, precisamos começar agora. E ensinar a fazer as melhores escolhas não é adestrar para que façam o que queremos que eles façam, mas ensiná-los a se conhecer, se perceber, entender as consequências de escolhas ruins e, então, aprender a decidir por eles mesmos.

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Juliana Cidade

Juliana Cidade Cardoso é mãe de dois meninos, psicopedagoga e educadora parental certificada em Disciplina Positiva pela Positive Discipline Association. Atua como consultora de educação positiva através de atendimentos presenciais em grupo (Rio de Janeiro) e individuais online. Ministra cursos, palestras e workshops sobre Disciplina Positiva.

Website: http://www.universodascriancas.com.br

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